Desprezou o azul profundo, intenso, excessivo.
Desprezou o azul profundo, intenso, excessivo.
Olho-a, parece um veludo,
Triste dia este em que te vi procurar todas as suas coisas para lhas dar.
Triste dia em que essas coisas, que displicentemente, se iam encostando por aqui,
considerando esta casa já um pouco sua, tiveram que dela sair, que a deixar.
Triste dia este em que te vejo procurar e arrumar, tão absorta como nunca vi,
livros, discos, e sei lá que mais, com os gestos maquinais de quem está a sonhar.
Detens-te, por vezes. Estranhas o que tens na mão, não compreendes.
Até que acordas, paras, olhas sem ver e deixas as lágrimas rolar.
Hoje perdeste a frescura do rosto só possível para os que não sabem,
para os que nunca sentiram a dor de acordar de um sonho de amor.
Uma memória única que apertamos num nó.
que gatinham pelo chão;
que adornam dedos irrequietos
irresponsável, imprudente,
É um correr… e um cansaço,
um desassossego… e uma inércia,
("Ballerinas" by Ellen Spenser)
Abre o pano!
Surge luminosa no seu vestido de dançar.
Pose distinta, elegante!
Pernas suavemente flectidas,
bem visíveis, até um pouco oferecidas
Está feliz, pois vai dançar!
O seu rosto deslumbrante,
diáfano mas, provocante
Volta-se, tentador,
e é com discreta lascívia
que o seu olhar sedutor
incita, estimula o seu par.
Ouve-se a música!
E num impulso,
Começa a revolutear.
As pernas giram, os braços voam
Todo o seu corpo se quebra,
Se enrosca, se desdobra, se estende…
Num completo arrasar.
E , esquecidos de nós,
da cadeira em que nos sentamos,
do que ainda agora choramos,
vamos sendo convidados,
A viver o sonho, a paixão,
o que era impossível e agora não!
(Fotografia de Chema Madoz "Livros e areia"
Vencida, desanimada, esgotada.
Empurrada pelas paredes
que parecem estar cada vez mais próximas,
mais ameaçadoras
e me sufocam, me oprimem, me assustam…
Acaricio o teu pelo macio, Zorba.
Tu que não me perdes de vista
e me olhas com a meiguice desses olhos de esmeralda.
E ronronas, e dás turrinhas, e te colocas na frente do eterno livro,
e me fazes chorar.
Desalentada abraço-te, companheiro de tantos anos.
E na tua irracionalidade de bicho, entendes-me
e colocas, com jeito, a tua pata macia no meu rosto.
Donagata
Com a palavra comunico
apalavrando o sentido,
sentindo o significado,
Traduzindo o sentimento.
Com a palavra transmito
palavreado sem tento
num fraseado bonito
num arroubo do momento.
A palavra, o verbo, a voz,
com ela me apraz jogar.
A ela lhe empresto o sentir,
a ela lho volto a tirar.
A partir de hoje, este blog que eu tenho mantido inactivo, vai conter todos os poemas que eu for escrevendo nos meus momentos de inspiração e nos outros também.
Passará, portanto, a ser um blog dedicado apenas aos meus devaneios poéticos.![]()