de ver a vida correr lá fora,
de ouvir os sons da rua coados pelos vidros,
pelas paredes,
pelas portas.
De ter como ponte para o exterior
uma caixa de imagens desprezíveis,
desinteressantes, repisadas e de mau gosto,
submirjo ávida nas letras dos livros
que me devolvem a sanidade.
Levam-me a viver outras vidas,
a sonhar outros sonhos,
a sofrer de paixão,
a amar incontroladamente,
a chorar outras lágrimas,
e a esquecer-me das minhas.
São vocês, dilectas letras,
que me fazem voar,
soltar-me da terra,
sorver em fortes golfadas os ventos do mar,
envolver-me na sua espuma,
enredar-me nas suas ondas,
vestir-me de algas,
visitar os seus segredos
e encontrar-me entre o sal das ondas e o das lágrimas,
desta vez das minhas, soltas na solidão.
Donagata
sinto-me: artista!
